Massacres, represálias <br> e protestos no Quénia

Carlos Lopes Pereira

A aviação militar do Quénia bombardeou na segunda-feira duas bases das milícias islamitas Al Shebab em território da Somália. As instalações atacadas, na região fronteiriça de Gedo, «foram destruídas», segundo um porta-voz das forças armadas, coronel David Obonyo, que não forneceu pormenores sobre o número de baixas entre os milicianos. Os bombardeamentos enquadram-se «no compromisso permanente» contra os radicais islâmicos, «que vai prosseguir», esclareceu o coronel.

A acção da força aérea queniana é vista como uma resposta ao massacre de 2 de Abril, na Universidade de Garissa, no Leste do Quénia, cometido por um comando daquele grupo somali. Morreram 148 pessoas – 142 estudantes, sobretudo cristãos, executados a tiro pelos assaltantes, três soldados e três polícias – e ficaram feridas mais de uma centena.

As reacções à chacina surgiram de todos os lados. O presidente queniano, Uhuru Kenyatta, prometeu «responder o mais severamente possível» a «este massacre medieval bárbaro» e apelou à unidade dos quenianos, independentemente do credo religioso que professem. A população do Quénia, de mais de 40 milhões de pessoas, é maioritariamente cristã e animista.

O seu homólogo da Somália, Hassam Sheik Mohamud, com escasso poder político-militar e sustentado pela «comunidade internacional», pediu o reforço da «cooperação anti-terrorista» entre os dois países da África Oriental.

Nkosazana Dlamini-Zuma, dirigente da União Africana, qualificou o massacre de «cobarde» e saudou o Quénia pela sua participação na Missão Africana na Somália (Amisom), bem como pelos seus esforços tendentes à pacificação e estabilização desse país.

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, recorrendo às banalidades habituais, exigiu que os responsáveis do ataque sejam levados perante a Justiça.

Mas também surgiram vozes no Quénia, no seio de universidades e da oposição, contra a intervenção militar na Somália, pelas baixas provocadas entre a população civil. Algumas organizações, como a Amnistia Internacional, lembraram também que, em 2014, o governo queniano lançou uma operação «de luta contra o terrorismo» que serviu de pretexto para «detenções arbitrárias, maus-tratos, extorsões, deslocações forçadas e expulsões» no seio da comunidade somali no Quénia, de alguns milhões de pessoas.

Terror e futebol

Não é a primeira vez que as forças armadas quenianas retaliam contra as milícias somalis, na sequência de atentados perpetrados no Quénia. Em 2013, tinham anunciado a destruição de um campo de treinos da Al Shebab, a 300 quilómetros a Oeste de Mogadíscio, depois da acção contra o centro comercial Westgate, em Nairobi, que fez 67 vítimas.

Agora, Garissa tornou-se o mais mortífero ataque sofrido pelo Quénia, depois do atentado de 1998 contra a embaixada dos Estados Unidos, reivindicado pela Al-Qaida – a que está vinculada a Al Shebab – e que causou 213 mortos.

O exército queniano entrou em 2011 na Somália para combater a Al Shebab (A Juventude), que multiplicou desde então as represálias em território do Quénia. O contingente militar foi depois integrado na Amisom, a força da União Africana que se encontra no país desde 2007 para apoiar o frágil poder central face aos grupos islamitas.

Já depois do massacre da semana passada, a Al Shebab voltou a ameaçar o Quénia com «uma longa e pavorosa guerra» e com «um novo banho de sangue», acusando o governo de Nairobi de «oprimir» a minoria muçulmana do país e de «ocupar as terras muçulmanas» da Somália.

As autoridades quenianas, acusadas pela imprensa de ignorarem os sinais de perigo e de terem reagido com demasiada lentidão no envio das forças de intervenção aquando do assalto à universidade, anunciaram a detenção de seis suspeitos (cinco quenianos e um tanzaniano) e ofereceram uma recompensa equivalente a 200 mil euros pela captura do alegado «cérebro» da acção, Mohamed Mohamud, um antigo professor queniano de uma escola corânica de Garissa, que se juntou há anos aos radicais islâmicos somalis.

Ainda assim, um colectivo de organizações da sociedade civil convocou para o início desta semana, em Nairobi, uma vigília de homenagem às vítimas e uma manifestação para protestar contra «a incapacidade do governo de proteger a população».

A ministra queniana dos Negócios Estrangeiros, Amina Mohamed, refutou estas críticas e, em declarações à France Press, citadas pela revista Jeune Afrique, afirmou que «combater o terrorismo (…) é como ser guarda-redes de futebol. Todos se esquecem dos 100 remates que defendeu e só se lembram do único golo que deixou entrar».




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